O manejo florestal sustentável da Caatinga precisa deixar de ser visto como uma ameaça e passar a ser reconhecido como uma das principais estratégias de conservação do bioma.
Essa foi a mensagem defendida pelo presidente da Reserva da Biosfera da Caatinga (RBCA) e vice-coordenador da Rede Brasileira de Reservas da Biosfera, Francisco Campello, durante o painel Panorama Geral do Manejo Florestal na Caatinga, realizado no evento Manejo Florestal na Caatinga: Certificação, Ativos Ambientais e Acesso a Mercado, promovido pelo FSC Brasil, em Fortaleza, Ceará, dia 02 de julho.
O encontro reuniu representantes de instituições públicas, organizações da sociedade civil, pesquisadores e especialistas para discutir os desafios e as oportunidades do manejo florestal sustentável, além do papel da certificação na valorização dos produtos oriundos da Caatinga.
Durante o debate, Francisco Campello chamou atenção para um dos maiores desafios enfrentados pela atividade: a percepção equivocada de que o manejo florestal equivale ao desmatamento. Segundo ele, embora o Brasil tenha acumulado importantes avanços científicos e técnicos, além de uma regulamentação específica para o manejo da Caatinga, a atividade ainda enfrenta resistência por parte da sociedade.
Essa percepção é reforçada pelas características do próprio manejo no bioma. Em determinados sistemas, como a talhadinha simples, a vegetação é cortada próxima ao solo, o que, visualmente, pode se assemelhar a uma área desmatada. No entanto, diferentemente do desmatamento, o manejo mantém a floresta viva e preserva sua capacidade de regeneração.
“O manejo utiliza a floresta sem eliminá-la. A vegetação continua existindo, se regenera naturalmente e volta a produzir em um novo ciclo”, explicou Campello durante sua fala.
O presidente destacou que o manejo florestal é realizado em áreas onde a legislação já permite a conversão da vegetação para outras atividades produtivas. Ao optar pelo manejo, o proprietário decide manter a cobertura florestal e gerar renda de forma sustentável, em vez de substituir definitivamente a vegetação nativa por pastagens ou lavouras.
Segundo ele, quando essa atividade deixa de ser valorizada, o efeito pode ser justamente o contrário do desejado. Áreas antes destinadas ao manejo passam a ser comercializadas para outros empreendimentos agropecuários, resultando na perda permanente da cobertura florestal.
Essa realidade já pode ser observada em regiões da Chapada do Araripe, no Cariri, Sul do Estado do Ceará, na divisa com o Pernambuco, onde propriedades historicamente destinadas ao manejo florestal vêm sendo convertidas para outros usos do solo, reduzindo a presença da vegetação nativa e alterando a paisagem do território.
Além da importância ambiental, Campello ressaltou que o manejo sustentável também representa uma estratégia de desenvolvimento regional. Atualmente, cerca de 30% da matriz energética da região Nordeste depende da biomassa florestal. No entanto, apenas uma pequena parcela (3,5%) dessa demanda é atendida por madeira produzida sob critérios de sustentabilidade.
Estudos desenvolvidos com apoio do Ministério do Meio Ambiente indicam que a Caatinga possui recursos florestais suficientes para atender essa demanda de forma planejada e sustentável. As pesquisas conduzidas pela Rede de Manejo Florestal da Caatinga também demonstram a elevada capacidade de regeneração do bioma, permitindo que a vegetação recupere sua produção em ciclos relativamente curtos, entre 12 e 15 anos.
Para a RBCA, ampliar o conhecimento da sociedade sobre o manejo florestal é um passo fundamental para fortalecer a conservação da Caatinga. Mais do que uma atividade produtiva, o manejo representa uma alternativa capaz de manter a floresta em pé, gerar renda para produtores rurais, abastecer a economia regional com matéria-prima de origem sustentável e contribuir para a proteção da biodiversidade.
Ao participar do evento promovido pelo FSC Brasil (Conselho de Manejo Florestal), a Reserva da Biosfera da Caatinga reafirmou seu compromisso com a promoção de modelos de uso sustentável dos recursos naturais, capazes de conciliar conservação ambiental, desenvolvimento econômico e inclusão social no Semiárido brasileiro.












